quinta-feira, 1 de março de 2012

Menchevique

            Parte IX


Como é incrível sempre cair de pé, como é incrível enxergar no escuro e como é incrível possuir habilidades acrobáticas que fariam Jet Lee e Jakie Chan se sentirem uns principiantes. Nisso pensava Paulo, pulando de telhado em telhado, fugindo de cães perseguindo ratos e zombando daqueles bípedes lá em baixo, apáticos bípedes correndo de um lado para o outro sem olhar pra cima, sem ver aquela bela lua cheia... E que vista linda! Se um dia algum absurdo cósmico lhe transformar em um gato ou gata, não fique dentro de casa. Faça como Paulo. Explore! Pule! Dance com o vento! Abaixo do teto, bípedes desperdiçam suas vidas, indo de não se sabe onde para lugar nenhum sem saber por que. Paulo é um gato agora, é mais que um felino urbano, é uma mensagem aos bípedes, um alerta do tempo e da ampulheta inexorável das areias da vida...

A conselho de Giralua, Paulo decidiu explorar um pouco sua nova e surpreendente condição de gato, e ele estava achando isso o máximo! Pena era não conseguir se comunicar com os outros gatos. Mas um dia, quando vadiava por aí com um grupo de gatos de rua que conhecera num telhado de zinco, percebeu que entendia o que um deles estava dizendo! Ou melhor, uma delas... Era uma gata. Dos outros gatos Paulo só ouvia “miau” pra cá “ron ron ron” pra lá e quando o clima esquentava os gatos soltavam uns uivos assustadores e super escandalosos (mas isso  Paulo entendia, os humanos também fazem algo parecido). Era como se alguém tivesse apertado a tecla SAP! Ele entendia perfeitamente o que aquela gata estava dizendo! E o que ela estava dizendo era “Porra, vamos sair dessa merda que tá queimando minhas patas caralho! Quem foi o imbecil filho de uma humana que teve a ideia de subir num teto de zinco à essa hora com um sol desgraçado desses?”. Paulo estava apaixonado.
                                                                                      ...

Muitas investidas, palavrões e insultos que pareciam não fazer o menor sentido depois, Paulo e a misteriosa gata falante já estavam relativamente íntimos. Só não saiam para “muivar”, “muivar” é uma gíria entre os gatos que você só entenderá quando um absurdo cósmico te transformar em um deles e então eles te convidarem para uma experiência biologicamente obscena (mas não se assuste, se você é um@ human@, já deve estar acostumad@ com convites para experiências biologicamente obscenas). Ela disse se chamar “Mewhoushnronnnwashn” que na língua dos gatos significa “bela”. Mewhoushnronnnwashn contou a Paulo que ele também tinha um nome na língua dos gatos, os gatos lhe chamavam de “Mohw” que na língua dos gatos significa “ Cara estranho que não sabe falar a nossa língua nem sai para muivar e que apesar de não irmos muito com a cara dele não larga das nossas patas” .  Enquanto os outros gatos saíam à noite para muivar, Paulo e Mewhoushnronnnwashn falavam sobre a vida, o universo, e tudo mais (42?). 

                Era uma noite linda, com lua brilhante e sem nuvens. Paulo e Mewhoushnronnnwashn se encontraram na cobertura do prédio mais alto da cidade, ele aproveitou a noite perfeita e...

_ Mewhoushnronnnwashn... O que acha de cultivarmos algo mais consistente?
_ Hã?
_ É... O que acha de...
 Ela estava quieta demais, trêmula, roendo unhas e olhando para os lados.
 _ Mewhoushnronnnwashn? Você está bem?
_ Sim...
_ Então... Como eu estava dizendo...
_ Não Mohw (ela, assim como os outros gatos, o chamava de Mohw)! Antes que prossiga, preciso te dizer uma coisa...

                Paulo percebeu o olhar emocionado da gata, e num silêncio respeitoso acenou com os bigodes e a orelha esquerda para que ela prosseguisse (acenar com os bigodes e a orelha esquerda ao mesmo tempo é um sinal de respeito entre os gatos, pelo menos alguns, eu acho, sei lá, não sou um gato pra saber dessas coisas!).

_ Mohw, querido... Eu...
_ Diga Mewhoushnronnnwashn, seja o que for, o que sinto por você é muito maior!
_É que... Eu... Eu sou social-decocrata!
Paulo fechou os olhos e curvou a cabeça com pesar. Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.

_ O quê?
_ É isso mesmo Mohw. Eu sinto muito!
_Mas Mewhoushnronnnwashn! Como isso foi acontecer? Como?
_Não sei... A ideia de um rompimento abrupto com as formas tradicionais de organização social me parecia tão sedutora. Mas de repente me vi imersa nesse mundo de cores e sabores transitórios e paulatinos...

_ Chega Mewhoushnronnnwashn! Chega! Há mais algum segredinho que você queira me contar? Seu nome é Mewhoushnronnnwashn mesmo?
_ Já que tocou no assunto... Meu nome não é Mewhoushnronnnwashn. Respondeu a gata, entre lágrimas e soluços miados.
_Qual o seu nome então?
_ Menchevique!

     Paulo virou as costas lentamente, não podia suportar aquilo! Conteve as lágrimas e sumiu na noite sem olhar para trás. Quando finalmente o cansaço foi maior que a tristeza, ele deitou-se num telhado qualquer, olhou para a lua e sentiu saudades de sua vida de humano.
_ Por onde andará Estela?

sábado, 2 de julho de 2011

A queda

Parte VIII

A queda, olhando em câmera lenta, até que não pode ser caracterizada como um desastre espetaculoso. Pensando bem, não foi lá grande coisa e nem seria relevante se o vaso pesado de Giralua não tivesse caído na cabeça de Paulo, se as prateleiras não tivessem caído em cima de Atma, se os livros não tivessem esmagado Giralua e se os três não estivessem... se sentindo... estranhos!
Giralua olhou para os lados e levantou-se cambaleante sobre duas pernas e...
Sobre duas pernas?!
Paulo levantou-se com uma terrível dor de cabeça, viu um vaso rústico quebrado, um girassol despedaçado, uma grande bagunça de livros e madeiras espalhados pelo chão. Lambeu os pelos e...
Lambeu os pelos?!
Homo sapiens e felino se olharam assustados pouco antes de exclamarem em uníssono:
_ ?!!?...!...?...!!...?!
O recente evento, havia trocado suas consciências, essências, imanências (ou o nome que você quiser!).
O felino agora é Paulo e o homo sapiens agora é Giralua.
...
A queda das prateleiras foi seguida de uma intensa troca de olhares de perplexidade e desespero entre Giralua e Paulo. Dias passaram sem que se falassem, apenas se olhavam, ou comiam, ou se olhavam enquanto comiam, ou dormiam, ou competiam para ver quem era o bobão que piscava primeiro.
Com o tempo acabou a comida e Paulo se preocupava.
_ Não sei o que houve...
_ E você acha que eu sei?
_ Precisamos fazer compras.
_ Típico dos humanos supor que tudo se resolve fazendo compras. 
_ Não é isso! É que precisamos comer.
Deduzindo que um gato não seria levado muito a sério em uma fila de supermercado ou de banco, Paulo instruiu Giralua quanto a execução de determinadas tarefas cotidianas que Giralua aprendia rapidamente devido a sua vasta experiência como planta que observa as patetices humanas.
Em pouco tempo Giralua, ainda absorto em perplexidade, já se tornara uma caricatura desengonçada (porém eficiente) do que fora Paulo antes da queda das prateleiras. E assim eles evitaram o assunto do mistério que bagunçara suas vidas, e o evitaram por vários dias. Certo dia Giralua chega ao apartamento com a notícia de que todos os cartões de Paulo estavam bloqueados. Precisavam de dinheiro!
_ Mas afinal, o que você faz para se manter?
_ Eu acabei de me formar em filosofia e estava dando um tempo... Disse Paulo.
“ Estamos ferrados!” Pensou Giralua.
...
Giralua se passando por Paulo, conseguiu um emprego de entregador em uma loja de informática. Uma das entregas foi numa casa no subúrbio, um computador dos mais baratos.
Giralua chamou no portão e foi atendido por uma jovem de uns vinte e poucos anos que ao vê-lo sorriu... sorriu e disse:
_ Paulo?
_ É... Sim... ( Giralua estava inexplicavelmente encantado, ao passo que também se sentia acanhado e com vontade de desaparecer e ficar, ao mesmo tempo!).
_ Achei que nunca mais fosse te ver! Entre!
_ É... Não posso, tenho que ir.
_ Mas você não tinha que instalar o computador?
Giralua deixou a caixa no chão e saiu correndo se sentindo um idiota. Logo Giralua, crítico ferrenho desse tipo de comportamento humano! A Jovem era ninguém menos que Estela, mas daremos a Estela o que é de Estela em momento mais apropriado.
No apartamento de Paulo, Giralua contou o ocorrido.
_ Você não pode sair por aí queimando o meu filme! Você tem que voltar lá! Gritou Paulo.
Giralua olhava-o distante, ainda com a imagem do sorriso enigmático de Estela dominando seus pensamentos, suas emoções!
Paulo respeitou seu silêncio. Pouco depois voltaram à triste sina de se olharem com espanto e perplexidade por horas a fio. Até que algo mais intrigou Giralua.
_ Mas... O que houve então com o gato?
Eles se olharam novamente, Paulo triste e Giralua resignado, enquanto pesarosamente dirigiam seus olhares para os restos secos de um girassol, despedaçado e irremediavelmente sem vida.
Ambos não sabiam, e nem poderiam, mas naquele mesmo apartamento, atrás de um retrato de uma senhora fazendo cafuné na cabeça de um pônei, uma pequena aranha sentia vontade de comer alface.

Naqueles poucos e loucos dias

Parte VII


      Morava em um apartamento apertado bem longe do centro da cidade. Eram sala minúscula, quarto microscópico e um banheiro de proporções quânticas. Paulo dividia este espaço com alguns móveis velhos, algumas prateleiras com livros, um gato chamado Atma e mais recentemente um girassol, que ficava na prateleira mais alta, junto com alguns livros e um retrato de uma senhora fazendo cafuné na cabeça de um pônei. “ Mãe e pai de Paulo” Pensava Giralua.
Seu desdém por soluções praticas acompanhava Paulo desde a infância, fazendo com que  se tornasse aquilo que aos “olhos” de Giralua era apenas mais um dos homo sapiens desperdiçando sua vida, mas Paulo desperdiçava sua vida de forma original, tão original que ganhara certo respeito de Giralua.
Naqueles poucos e loucos dias de “Convivência” forçada, Giralua viu o jovem Paulo discutindo consigo mesmo se o conceito de beleza na sociedade contemporânea é o mesmo da fusão da harmonia com a virtude estóica ou apenas o resultado de uma dialética ontológica da epistemologia do ser em si consigo mesmo nos outros. “Isso é mais divertido que a floricultura!” pensava Giralua. “O que me inquieta é esse gato com cara de psicopata me encarando o tempo todo” pensava (novamente) Giralua.
Giralua tinha motivos mais do que concretos para se inquietar. Atma, o pardo gato vira-latas de Paulo, era vegetariano, graças a Paulo que o habituou desde filhote, por motivos ideológicos. Atma, assim como é comum entre homo-sapiens, atendia aos critérios práticos de uma ideologia, mas não fazia a menor ideia do que isso queria dizer e estava mais é afim de vadiar por aí atrás de gatas no cio e comer umas folhas de vez em quando. Atma era tarado por folhas, principalmente alface, mas no fim das contas não perdoava nada, e inclusive estava a dias de olho em certo girassol.
Ter um gato vegetariano era legal no começo, mas com o tempo Paulo teve tudo o que era planta na casa devorado, havia criado um monstro!
Paulo então teve a ideia de voltar a ter plantas, e por causa de seu desprezo por soluções práticas e sua interpretação metafísica do sentido da representação, decidiu comprar um girassol no dia dos namorados e colocá-lo onde Atma não poderia alcançar: na prateleira mais alta, ao lado do retrato de sua mãe fazendo cafuné em um pônei.
Giralua e Paulo nunca se falaram, ao contrário do que possa parecer, nem todo mundo nessa história conversa com plantas sem que isso resulte em maiores desdobramentos psico-patológicos.
Paulo não saia muito e a prateleira era realmente alta. Giralua estivera seguro do gato inconvenientemente vegetariano até o dia em que Paulo se empolgou em uma fervorosa discussão consigo mesmo sobre a relação da existência ou não de Deus com a espinha que aparecera misteriosamente no seu queixo enquanto ele depilava as costas, que acabou esquecendo uma escada que usara durante a fervorosa discussão perto das prateleiras.
        Para o terror de Giralua, Atma não perdeu tempo, e antes que Paulo (ou qualquer outra criatura no planeta) pudesse pronunciar “Kierkegaard” corretamente, estava abocanhando vorazmente as folhas do aterrorizado Giralua. Paulo interrompeu seu auto-debate e saltou desesperadamente (e desastradamente) em direção a prateleira que se soltou fazendo com que gato, planta, homem e retrato de senhora fazendo cafuné na cabeça de um pônei fossem todos ao chão. 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Giralua

Parte VI

“ O amor é fragrante como um ramo de rosas.
Amando se possuem todas as primaveras.
Eros traz em sua aljava as flores olorosas,
De todas as umbrias e todas as pradarias.”
Juana de Ibarbourou (1895 – 1979), Poesias

“Amor?
Receios, desejos,
promessas de paraísos,
depois sonhos, depois risos
depois beijos!
Depois...
E depois, amada?
Depois dores sem remédios
depois, pranto, depois tédio,
depois... nada.”
Menotti Del Picchia (1892), Juca Mulato

“Será que defenderiam esses mesmos sentimentos se não fossem receber nada em troca?”
Paula Lee,  Alugo o meu corpo

“ O amor, tal como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes.”
Chamfort (1740 – 1794), Máximas e Pensamentos

“ A gente sabe que o amor existe graças aos crimes passionais que a imprensa registra diariamente.”
Mário da Silva Brito (1916), Desaforismos


Era véspera do dia dos namorados e aquela floricultura estava lotada. As pessoas, principalmente homens, compravam todo o tipo de flores e arranjos. Havia uma vitrine que ficava em frente à avenida mais movimentada da cidade, onde estava exposta imensa variedade de flores. De petúnias a orquídeas, de cravos a girassóis... 
A procura por flores era tanta naquele dia que só sobraram uma rosa e um girassol. Ninguém queria o girassol, era muito pequeno e estava plantado em um vaso de barro simples e rústico. Como se não bastasse, tratava-se de um girassol que apontava sempre para o chão.
Tiveram que sortear a rosa, pois muitos a queriam. Quem ganhou foi um velho senhor que a deixou cair por acidente, e na disputa para quem pegava, a rosa foi pisoteada, desfigurada. Assim todos perderam o interesse nela também, e ela foi posta na vitrine junto com o girassol. A dona fechou a loja, pois já anoitecia, e enquanto trancava as portas pensou em como seria fácil vender aqueles dois itens defeituosos no dia seguinte para algum “apaixonado”.
O tempo foi passando, a noite definitivamente engoliu o dia e  só então Giralua ergueu-se expondo  suas belas pétalas de girassol apontando para a lua que pairava mansa naquele céu de junho...
_ Como você está? Giralua perguntou à rosa.
_ Depois de ser pisoteada por humanos a cabeça dói e vem um medo terrível de morrer. Bate um arrependimento, se pensa em Deus, logo depois de pensar nas sementes que nunca germinarão. Sei o quanto isso parece absurdo para você, somos plantas! Não temos cabeça e as promessas celestiais não nos contemplam.
_ Eu te entendo. Depois de passar tanto tempo entre os humanos é natural que por osmose se adquira alguns de seus maiores defeitos.
_ Sim, mas e você? Por que não segue  o sol como os outros girassóis?
_Cansado desse vai e vem sem sentido, passo os dias olhando para baixo, só de noite olho pro céu. Sou um girassol que trocou o sol pela lua.  Os outros girassóis me apelidaram de “Giralua” porque me cansei do sol, passo o dia olhando para baixo... Bem que posso ter me precipitado, pois tentei aliviar a dor que me causava esse mundo tacanho ao meu redor simplesmente tentando ignorá-lo. Foi um longo processo até que eu fomentasse minhas resoluções de girassol noturno... Apesar de tudo, sou muito grato por não ser uma rosa. Não consigo imaginar coisa pior do que ser símbolo disso que os humanos insistem em chamar de amor. 
_ Amor? Sei que fui cultivada para servir de prenda. Sei que quem me receber provavelmente estará confundindo gratidão com amor. Ou piedade... As pessoas vivem confundindo piedade com amor. Ou dependência... Enfim, o que eu vi através dessa vitrine foram pessoas juntas com quem lhes trouxesse alguma vantagem. Pessoas que quando encontram alguém que amam de verdade,  perdem por falta de coragem, então acabam se juntando com alguém por quem não sentem nada.
_ E viva ao medo da solidão.
_Sim! Sem o medo da solidão que os humanos sentem, as outras rosas não teriam sido vendidas e estariam murchando comigo agora. 
E as duas plantas renegadas continuaram compartilhando suas amarguras, o sol nasceu e Giralua voltou a sua postura habitual, em direção ao chão. A rosa já não se esforçava para parecer de bom aspecto, havia desistido disso desde que fora pisoteada no dia anterior.
O tempo passou, a dona da floricultura preparava novas flores para a vitrine quando o jovem Paulo, conhecido nosso, mostrou interesse pelo girassol e resolveu levá-lo.
Giralua tentou despedir-se da rosa desfigurada, mas era tarde demais.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Espetáculos Urbanos (Entrelinhas)

Parte V

- Sabe Bianca, esse almoço em plena manhã estava uma delicia! O que achou?
- Muito, muito gostoso.
- Deixe tudo aí que mais tarde eu lavo a louça. Venha, tem algo que gostaria de compartilhar com você. Vamos sair...
- Nossa, mas preciso avisar minha avó!
- Faz o seguinte, eu me troco e passamos juntas na sua casa para avisá-la.
- Tá bom então!
Estela colocou uma roupa qualquer, não tinha muitas vaidades não. Calça jeans, uma blusa qualquer (lisa de preferência) e um tênis. Às vezes chinelos. Nesse momento foi tênis mesmo...
Passaram na casa de Bianca, sua avó ficou desconfiada, pediu todas as explicações do mundo e exigiu que não demorassem.
- Vamos de ônibus?
- De jeito nenhum querida. Vamos a pé.
- Mas é muito longe?
- É onde tem que ser Bianca, não seja preguiçosa. Se prestar atenção verá coisas fantásticas pelo caminho ao invés de ficar preocupada com a distância que vamos andar. De ônibus, carro ou qualquer coisa parecida provavelmente não enxergaríamos nada... É preciso mesmo que um pouquinho deixar a pressa do cotidiano de lado para prestar atenção ao mundo a sua volta.
- Mundo a minha volta? Você fala umas coisas estranhas...
- Sim... Essa cidade, sua avó, sua casa, seu jardim, seu quarto, suas amigas e amigos... Tudo isso é o mundo a sua volta sabia?
- É? Mas mundo é muito grande.
- Realmente, e essas coisas todas não são enormes? Observe mais atentamente seu jardim e perceba as inúmeras coisas que vai encontrar lá.
Enquanto caminhavam Estela foi mostrando a Bianca os espetáculos urbanos que iam encontrando.
Viram o céu azul meio acinzentado, bonito como só ele consegue ser, ensaiando uma chuva friorenta. Daquelas de se esconder em casa debaixo do cobertor. Em frente a uma loja havia um casal conversando tão intimamente que dava para sentir de longe a energia cúmplice que era trocada entre ambos. Estela lembrou intimamente das borboletas amarelas que acompanham Mauricio Babilonio em Cem Anos de Solidão...
Passaram por uma calçada onde uma fileira de formigas bravias carregava seu alimento...
- Cuidado Bianca! Não vá destruir o caminho das formigas...
- Formigas?
- Sim, veja...
- Mas são tão pequenas, é difícil prestar atenção.
- Sabe o que são as entrelinhas?
- Não...
- Eu costumo pensar e dizer que é aquilo que não vemos. Que não está diante dos olhos, que não é óbvio. É preciso enxergar um pouco mais longe...
- Hummm!
- E é isso que quero dizer! Quero que você veja além do que está diante dos olhos entendeu? Não precisa fazer isso agora ou amanhã, mas pense a respeito, revolva isso aí dentro e em outro momento conversamos. Chegamos ao nosso destino!
- Estamos no trilho do trem!
- Isso mesmo. Venha, quero lhe apresentar uma amiga que mora aqui.
Bianca ia achando tudo tão esquisito e fascinante. Tinha medo, mas sua curiosidade e teimosia o afogavam.
Estela há alguns dias não ia encontrar sua Encantada Flor, sua amiga querida. Mais precisamente desde aquele dia do cansaço e da morte do Cacto. Resolvera compartilhar com Bianca por ter sentido que devia.
- Olá minha querida! Demorei, mas eu vim...
- Sabia que viria, era preciso o momento certo.
A encantada flor lhe sorriu feliz.
- Está é Bianca. Me apareceu hoje com um presente especial.
- Na realidade eu matei o Cacto dela e então quis dar um presente. Comemos ele no almoço que fizemos de manhã.
- Sim, era um pé de alface...
Riram como criança, como Bianca... A Encantada Flor quis saber do ocorrido. Estela apesar de dolorida já conseguia falar... Contou tudo, cada lágrima derramada...
- Mas é assim mesmo... Um vento qualquer pode nos derrubar. Mais rápido do que se pode imaginar.
- A dor que está sentindo vai permanecer e reverberar aí dentro por tempos ainda, mas ela se suaviza até passar... Até sobrar só saudade. Uma saudade gostosa...
- Assim espero! O que você acha Bianca? Já perdeu alguém ou algo que amava muito?
- Bem, deixa eu pensar...  Minha mãe uma vez me disse num papel que precisava ir embora pra um lugar... Aí eu fiquei com a minha vó.
- A é... E seu pai?
- Acho que ele não existe. Mas minha mãe disse que ia voltar, minha vó fala que não...
Aquela conversa ficou por ali... Findou-se naquelas palavras. Estela estava surpreendida, a Encantada Flor também, mas com a sua serenidade e entendimento das coisas de sempre. Sabia de alguma forma daquela história, sabia daquela menina e sabia ainda mais que nada meramente casual a aproximara de Estela. Conversaram ainda mais um pouquinho, mas as duas precisavam voltar, pois prometeram não demorar.
- Gostei de você Florzinha, quero vir mais vezes.
- Venha sim Bianca, gostei muito de você também. Estela fique bem! Volte no momento adequado...
- Voltarei!
O caminho de volta foi repleto de mais espetáculos urbanos, findou-se com alguns pingos de chuva se adiantando em suas cabeças...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Salada

 Parte IV

Ao acordar se sente entorpecida, talvez por efeito de um sono regado a lágrimas. Ela se guarda, se fecha como uma mimosa pudica tocada pelas mãos distraídas do tempo e transforma aquela manhã em toda uma vida de profundas introspecções, desde o grito irritante do despertador do celular até quando os raios de sol atravessaram o vidro da janela e fizeram sombras infiéis dos poucos e parcos objetos em sua sala.
Sala? Estela conscientiza-se de quem é e de onde está, mais de onde está do que de quem é, de ambas as coisas ela nunca teve certeza. As sombras faziam a sala parecer mobiliada de formas parecidas com construções medievais, naves espaciais e outra bem grande parecida com uma cabeça humana. Mas esperem... “Essa cabeça não é a minha”, pensou Estela.
_Bianca!?
_Bom dia!
Estela se levanta com muito pesar, verifica os cabelos, a roupa e rasteja até a porta, curiosa para saber o que a garotinha fazia em sua janela. Bianca entra assim que Estela abre a porta sem aguardar convite e senta-se no colchão multiuso, peça única da sala. A menina traz consigo uma sacola (dessas de supermercado) com algo volumoso dentro.
_ Que casa legal! Parece uma cela do Prision Break.
_ Então Bianca... Veio me fazer uma visita assim tão cedo?
_  Sim, desculpe por invadir seu quintal, minha avó não me deixa sair sozinha então tive que pular o muro de novo enquanto ela via televisão... Lembra da sua plantinha que eu quebrei?
_ Sim, mas não se preocupe, Bianca. Coisas assim acontecem o tempo todo, não foi sua culpa.
_ Pois é... Hoje à tarde eu volto para a casa dos meus pais, mas antes de ir lhe trouxe um presentinho!
Bianca tira da sacola o objeto volumoso, que se revela verde e, esperem...  É um pé de alface!
Estela olha para a planta hortense já meio murcha nas pequenas mãos de Bianca e é tomada por uma série de recordações inusitadas.
_ Alface?
_ Sim! Eu ia pegar uma das plantinhas da vovó, mas ela ficaria muito brava...
 Estela lembra-se do ocorrido com seu amado cacto e não consegue reprimir a acidez de suas palavras.
_ Escute menina, a vida sempre me foi um enigma, amargo enigma impossível de decifrar... Aquele cacto veio, mudou meu mundo e agora você me vem com  uma alface insinuando que isso pode substituí-lo? Não vou tentar mudar você, nada que eu possa dizer vai te fazer mudar, seus  erros vão falar por mim...
Estela olha para os olhos arregalados e confusos de Bianca. Uma pequena garota confusa de oito anos com uma alface nas mãos. Oito anos... Estela recompõe-se.
As duas se olham, Bianca esboça um sorriso daqueles impraticáveis no rosto de um adulto, que é acompanhado por uma gargalhada catártica de Estela seguida por um abraço, um longo e apertado abraço entre duas jovens confusas.
_ Bianca, que tal fazermos algo bem legal com a alface?
_ Vamos perguntar se ela sabe a resposta para o “amargo enigma da vida”?
_ Na verdade me deu fome, e essa alface não está com cara de quem quer falar do “amargo enigma da vida”.
Ambas se olham, e riem um riso que contagiaria um exército de maníaco depressivos em plena terceira guerra mundial.
_ Venha Bianca, vou te ensinar a fazer uma deliciosa salada.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Duas em uma

Parte III

Estela tinha muitos amores (Quando falo dessa maneira quero dizer todos os amores, os que chamamos amizade, paixão, namorado, namorada, enfim... Já que não posso fugir das definições prefiro que seja algo amplo, não muito especifico). Seu amado Cacto lhe chegou através de um desses amores.
Duas histórias em uma...
Um dia Estela esperava o ônibus. Divagava o prazer de um pote enorme de pipoca ao chegar em casa. De repente ouviu em silêncio um olhar perscrutando – a. Devolveu – o surpresa. Ele (o dono do olhar perscrutador) lhe disse que a achara curiosa. Estabeleceu – se um diálogo onde os únicos sons presentes eram os da vida em torno. Carros, vozes alheias, moscas, martelos, motos, celulares e por aí vai...
- Me achou curiosa?
- Muitíssimo.
- Por quê?
- Seu jeito vago e vacilante.
Nenhuma resposta. Estela desvia o olhar, incomodada. Nunca ninguém lhe falara assim tão diretamente. Retoma a conversa, doía-lhe a solidão, mas estava gostando da situação.
- E você quem é?
- Me diga você...
- Divertido.
E ele abriu um sorriso zombeteiro; felpudo.
Vinha vindo o ônibus, mas somente ele partiu. Estela ficou a olhar lá para dentro, queria perceber seus movimentos... Ainda com o ônibus parado ele lhe devolveu o olhar dizendo seu nome. Paulo.
A partir desse dia o acaso lhes foi impetuoso. Encontrava – o sempre em muitos lugares. Ônibus, rua, ponte, esquina, lojas... É preciso que me atenha nesse momento, da loja, pois foi em uma que seu amado Cacto lhe apareceu.
Estela atordoada em meio a cachecóis dos mais variados tipos arrepiou – se ao perceber Paulo com o olhar cravado em sua nuca, virou-se assustada e recebeu um fantástico olhar de saudação. Devolveu – o tranqüila pela situação já conhecida. Em seguida voltou para os cachecóis, precisava escolher um apenas, mesmo querendo levar todos.
Ao finalmente se encontrar na porta da loja com seu mais novo cachecol cor de amora deparou – se com Paulo a lhe estender um cacto lindíssimo num vasinho de cerâmica charmoso. Nem pensou, aceitou imediatamente, se encantara com o cacto no mesmo segundo em que se deparou com ele e sentiu imensa reciprocidade. Agradeceu Paulo pelo presente garantindo cuidado extremo. Foi embora divagando nas cores que iriam ornamentar a casa de seu novo amor, o nome seria exatamente aquele. Cacto. Não poderia achar um melhor.
Um amor que chegou através de outro amor...
O Cacto trouxe som e cor para sua casa, Estela tagarelava o tempo todo, ouvia atenta e nitidamente cada palavra dele, ambos criaram uma belíssima relação de companheirismo e confidências. Quanto a Paulo o acaso ainda lhes é impetuoso, mas precisa contar o ocorrido a ele...
 “Uma bola colorida? Bianca? Não da nem para ficar com raiva dela...” Estela se afogava em um pote enorme de pipoca no colchão da sala. Um filme sem graça se insinuava na pequena televisão a sua frente. Mas estava longe dali, não tirava da cabeça a ironia e o absurdo de toda a situação, não pensava noutra coisa a não ser na fragilidade de cada ser vivo existente no mundo, na fragilidade de cada vida acontecendo nesse instante, pensava no absurdo e na tristeza dessas vidas simplesmente acabarem assim de repente.
Quantas nesse exato segundo findaram – se?
As pipocas acabaram. Cansou – se daquela movimentação parca e irritante da TV. Fumou seu último cigarro, foi dormir com lágrimas novamente a lhes saltar dos olhos desencantados.